Vai uma apostinha?

Já há algum tempo que comecei a reparar que é difícil passar um dia na internet sem encontrar referências a apostas online. Não importa se estamos a ver vídeos no YouTube, nas redes sociais ou simplesmente num motor de busca. Mais cedo ou mais tarde aparece um anúncio ou alguém a falar sobre apostas, como se fossem apenas mais uma forma de entretenimento e lazer. 

As apostas entraram silenciosamente no nosso quotidiano. Estão presentes em todos os conteúdos que consumimos, nas campanhas publicitárias e até em conversas entre amigos. Tornaram-se familiares. Tão familiares que, por vezes, deixamos de questionar a sua presença constante. 

E talvez o problema comece quando algo associado à perda financeira, ao vício e à dependência passa a ser culturalmente aceite como algo inofensivo. 

Nas redes sociais, é frequente encontrar histórias de ganhos rápidos e apostas bem-sucedidas. Fala-se dos cinquenta euros ganhos a partir de cinco, das previsões certeiras e da emoção do momento. Quase parece um método de enriquecimento acessível e possível para todos, sem truques escondidos, um contrato sem cláusulas.  

Mas raramente se fala das perdas. Raramente se fala da frustração, da ansiedade ou da necessidade de recuperar o dinheiro que ficou pelo caminho. Aos poucos, cria-se a ideia de que apostar é apenas mais uma forma de lazer. Um hábito como tantos outros. 

Talvez seja por isso que tantas pessoas só se apercebam do problema quando ele já ganhou espaço na sua rotina. Afinal, as coisas mais perigosas nem sempre chegam de forma brusca. Muitas vezes instalam-se devagar, de forma discreta, até fazerem parte da paisagem rotineira, uma paisagem que, pouco a pouco, vai perdendo vida sem que se dê por isso. 

A questão central não é proibir as apostas online. Elas são legais e fazem parte do mundo digital em que vivemos. O que importa discutir é a forma como são promovidas, e a facilidade com que nos habituámos à sua presença sem refletir verdadeiramente sobre as consequências que acarreta. 

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