Amanhece o dia 3 de maio na agitada Lisboa. Especialmente nesta data, a metrópole desperta em um ritmo diferente, mais lento. Para os portugueses, é Dia da Mãe. Para mim, intercambista e latino-americana, é apenas mais um domingo comum.
Entre turistas americanos e filhos que voltam para a casa, me encontro em meio a Estação do Oriente com o estômago praticamente vazio e uma pauta cheia nas mãos.
Meu destino é Golegã, no distrito de Santarém, onde uma pequena família circense se instala para as apresentações do fim de semana. Para quem nasce com a sede de contar histórias, uma hora e meia de viagem com a incerteza de chegar ao destino final, ainda parece pouco motivo para desistir.
O jornalismo exige ausências invisíveis: almoços de família perdidos, comemorações adiadas, rotinas interrompidas. Mas é justamente dessas perdas que muitas histórias ganham vida — histórias que, sem alguém disposto a chegar até elas, talvez nunca atravessassem a fronteira do esquecimento.
Na Estação do Oriente, os ecrãs exibem horários, plataformas e destinos num ritmo quase industrial. Os turistas americanos se acumulam diante das telas tentando decifrar o sistema ferroviário português. Alguns me abordam com a esperança de que a minha juventude significasse familiaridade com qualquer tecnologia urbana. Dão de cara com o azar. Estou tão perdida quanto eles.
Existe um imaginário entre os latino-americanos de que a Europa opera numa lógica perfeita: transportes impecáveis, horários rigorosos, organização absoluta. Isso nos revela o famoso complexo de vira-lata, um sentimento de inferioridade cultural dos brasileiros em relação ao exterior. Bastou eu perder um comboio para perceber a facilidade com que esse imaginário cai por terra.
Inocência minha em achar que, como uma carruagem, um comboio escrito visivelmente Destino: Torres Novas (local de conexão até Golegã) iria chegar no horário mais pontual possível para que eu embarcasse.
O comboio partiu sem que eu entendesse exatamente como. Não sei se por erro meu ou pela lógica pouco intuitiva da rede ferroviária.
O que mais me assusta não é o fato de talvez não ser reembolsada. Mas sim a ironia que eu iria escutar da funcionária da CP, que repete a mesma frase dezenas de vezes a turistas perdidos no mesmo tipo de desencontro. Não houve dramatização. O problema é exclusivamente meu.
Ninguém reorganiza a pauta porque o transporte falhou. Ninguém suspende entrevistas porque o repórter está cansado. E muito menos um Editor-chefe vai nos passar a mão na cabeça e dizer: “Está tudo bem, volte para a casa e outro dia você tenta”.
Meu lado humano e cansado, cogita desistir e voltar para a casa. O lado jornalista, acha uma solução no networking.
É através de contatos em Santarém que descubro que a dificuldade não era apenas o feriado, mas o próprio interior português. Antes de chegar à Golegã, eu precisaria “ir para o entroncamento” — nome que demoro alguns minutos para perceber que pertence a uma cidade e não ao termo que se refere à interseção de duas vias.
O próximo comboio sairá horas depois. O que me resta é esperar.
Durante a espera, reflito que o jornalista depende justamente da disposição de abandonar o conforto e lidar com a imprevisibilidade. Permanecer na bolha cria uma falsa sensação de horizonte — como se tudo terminasse onde o olhar alcança. Mas é fora desse limite que se encontram histórias que precisam ser ouvidas.
Horas depois, finalmente chego ao circo.
Bastam poucos minutos nos bastidores para perceber o que nenhuma apuração online alcançaria.
Por trás da cortina do espetáculo, o figurino não esconde o humano — revela. Ali vivem famílias inteiras que fazem da estrada sua casa e da incerteza seu sustento. Entre desmontagens e partidas, enfrentam o sol, o cansaço e a instabilidade de um público que nunca é garantido.
Chega a hora de voltar para Lisboa. Pego o comboio das 20h. O corpo está exausto, mas o fim do dia parece ter deixado um tipo estranho de lucidez, quase um efeito analgésico. Meu cansaço havia sido substituído por sentimentos de alegria, gratidão e de dever cumprido.
O estresse da manhã, as horas na estação, o dinheiro gasto, a incerteza dos caminhos…Tudo isso agora parecem pequenos detalhes do meu dia.
Encosto a cabeça no vidro do comboio e observo a paisagem se distanciar.
É então que me lembro de uma frase dita por uma das integrantes do circo: “Somos galinha do campo. Não gostamos de estar presos.”
Penso que talvez haja algo disso também no jornalista. Um movimento constante, uma recusa em permanecer no mesmo lugar. Circo e jornalismo se encontram nesse ponto invisível. Ambos vivem da estrada, dependem do deslocamento e sabem que ficar tempo demais parado pode apagar a chama do amor pela profissão.
Lá fora, a paisagem continua passando.
E é justamente nesse movimento que tudo ganha sentido.
A maior parte das pessoas vê apenas a matéria pronta.
Quase ninguém vê o caminho percorrido até ela existir.







