Em sonhos, é sabido, não se morre

“O sonho comanda a vida.” Foi assim que Xtinto descreveu “Em sonhos, é sabido, não se morre, o seu novo álbum, cujo título recupera uma frase de Sérgio Godinho. O trabalho, explicou, reflete sobre identidade, fragilidade e reconstrução, mas também sobre a inevitabilidade da música na sua vida: sempre que pondera desistir, acaba por regressar a ela. Quando falou do desgaste que sentia, o rapper português não apontou diretamente à criação musical. O que o “andava a chatear”, disse, eram “as coisas mais chatas e burocráticas que vêm agarradas à música”, trabalhos que aceitava sem verdadeira identificação.

A distinção importa porque expõe uma tensão frequentemente ignorada na indústria musical contemporânea. Muitos artistas não querem necessariamente abandonar a música; querem, muitas vezes, afastar-se da lógica produtiva e empresarial que passou a ser inseparável dela.

Hoje, fazer música raramente significa apenas criar música. Espera-se que os artistas mantenham relevância constante, alimentem uma presença pública contínua, produzam conteúdo e sustentem uma identidade reconhecível num mercado cada vez mais rápido e saturado. A música continua a ser arte, mas passou também a disputar atenção.

É verdade que nunca foi tão fácil lançar música. Mas a democratização da indústria trouxe consigo uma concorrência feroz por um recurso cada vez mais escasso: a atenção.

Quando milhares de músicas competem diariamente pelo mesmo espaço de visibilidade, a lógica de mercado tende a favorecer aquilo que circula mais depressa e se adapta melhor aos mecanismos das plataformas. Estruturas imediatamente reconhecíveis, presença digital contínua e formatos facilmente consumíveis tornam-se, muitas vezes, escolhas mais seguras do que processos criativos mais demorados ou propostas artisticamente menos imediatas.

Isto não significa que a liberdade artística tenha desaparecido. Nenhuma plataforma obriga um artista a abdicar da sua liberdade. Mas há formas de condicionamento que não se anunciam como proibições. A liberdade artística não depende apenas da ausência de censura; depende também das condições em que a criação acontece. Num ambiente marcado pela saturação permanente, o risco artístico deixa de ser apenas uma escolha estética e passa também a ser um risco de invisibilidade.

É precisamente aqui que a observação de Xtinto ganha maior dimensão. Quando um artista fala do desgaste provocado pelas camadas burocráticas “agarradas” à música, talvez não esteja apenas a falar de agendas, contratos ou promoções. Talvez esteja a falar de uma relação cada vez mais difícil entre o sonho artístico e tudo aquilo que se foi acumulando à sua volta.

Em sonhos, é sabido, não se morre. O problema de muitos artistas talvez não seja terem deixado de acreditar na música. É terem deixado de reconhecer tudo aquilo que hoje lhes é pedido em nome dela.

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