A banalização do inaceitável

Quando o discurso de ódio deixa de chocar e passa a integrar o quotidiano social e digital.

Hoje em dia, basta abrir a caixa de comentários de qualquer notícia para perceber que certas palavras já deixaram de chocar. Recheada de insultos disfarçados de opinião e de discursos de ódio escritos com uma estranha naturalidade, a internet tornou-se um espaço onde o inaceitável parece cada vez mais banal.

Frases escritas em letras maiúsculas, bandeiras nacionais usadas como argumento e ataques escondidos atrás da sempre conveniente “liberdade de expressão”, desenham um cenário profundamente inquietante. O que antes seria considerado intolerável surge agora acompanhado por centenas de gostos, partilhas e comentários de apoio.

E isso é, provavelmente, o mais preocupante.

O ódio nunca desapareceu. A xenofobia e o racismo sempre existiram, mesmo quando escondidos em conversas de café ditas em voz baixa ou em opiniões partilhadas apenas entre “os de confiança”. A diferença é que hoje parecem ter encontrado um lugar de legitimidade. Passaram das margens silenciosas e escondidas para o centro do debate público, muitas vezes impulsionados por figuras políticas que descobriram no medo e na revolta uma forma eficaz de captar atenção para “a sua causa”.

Também já não é raro ver jovens aproximarem-se de discursos extremistas com uma estranha leveza, muitas vezes motivada por vídeos curtos, frases provocadoras e ideias simplificadas que se espalham nas redes sociais com uma velocidade difícil de acompanhar. Nem sempre por convicção ideológica profunda ou estudada, mas porque cresceram num ambiente em que certos discursos deixaram de parecer excecionais.

O mais estranho é a rapidez com que nos habituámos.

Uma declaração polémica dura algumas horas nas redes sociais, ocupa debates televisivos durante um dia e desaparece logo a seguir, substituída pela próxima indignação momentânea. O choque tornou-se temporário. E aquilo que se repete demasiadas vezes acaba, inevitavelmente, por perder o peso que tinha.

É essa repetição que mais assusta.

Quando determinadas ideias são constantemente apresentadas como apenas “mais uma opinião”, começa-se lentamente a esquecer que nem todas as opiniões têm o mesmo peso moral. Há uma diferença entre discordar e desumanizar. Entre debater e atacar a dignidade de alguém pela sua origem, cor de pele ou nacionalidade.

Ainda assim, vivemos numa era em que qualquer tentativa de denunciar estes discursos é rapidamente reduzida a exagero. Há sempre quem responda com um “agora já não se pode dizer nada”, como se o problema fosse mesmo o excesso de silêncio e não o excesso de ruído, ou acuse os outros de serem “woke demais”. Como se defender o respeito básico fosse uma moda passageira, especialmente de cariz político, e não um princípio essencial de convivência em sociedade.

O maior perigo pode nem estar nas palavras mais violentas, mas no momento em que deixamos de reparar nelas e no peso que carregam. Porque uma sociedade não muda apenas pelas ideias que aceita, muda, sobretudo, pelas ideias que deixa de questionar.

E é precisamente aí que tudo começa: no instante em que o inaceitável passa a parecer normal.

Pode ler também