Abrimos o Instagram durante poucos minutos e a sensação é quase inevitável: há sempre alguém mais definido, mais magro ou mais próximo do chamado “corpo ideal”. As redes sociais estão repletas de imagens de perfeição e, de tanto as vermos, começámos a tratá-las como algo normal. O problema é que essa normalidade é uma ilusão, e talvez seja precisamente isso que explica porque é que tantos jovens vivem com a sensação constante de que nunca são suficientes.
Aquilo que vemos nas redes sociais está longe da realidade. Filtros, edição de imagem, iluminação estratégica e poses estudadas transformam o corpo numa versão idealizada de si próprio. O que parece espontâneo é, muitas vezes, planeado ao pormenor, e o que parece natural nem sempre o é.
A isto junta-se uma realidade que quase nunca é mostrada nem falada. Nem todos os resultados físicos postados online são alcançados através de treino e alimentação. Em alguns casos, existem métodos que aceleram essas transformações, como o uso de esteroides anabolizantes. No entanto, essa utilização nunca é assumida. O público vê apenas o resultado e acaba por acreditar que aquele corpo está ao alcance de qualquer pessoa.
A própria rapidez com que os padrões de beleza mudam demonstra o quão artificiais eles são. Há alguns anos, as redes sociais glorificavam curvas exageradas, preenchimentos e procedimentos estéticos. Nos dias atuais promovem uma aparência mais “natural” e uma magreza extrema. O padrão muda, mas a pressão para alcançar o mesmo permanece.
O problema começa a surgir quando essas imagens deixam de ser vistas como exceções e passam a ser encaradas como referências para muitos jovens. Ao serem expostos diariamente a corpos aparentemente perfeitos, começam a comparar-se com algo que muitas vezes nem existe fora do ecrã. E essa comparação raramente termina de forma positiva.
Da comparação nasce a insatisfação, da insatisfação nasce a ansiedade e da ansiedade nasce a sensação de insuficiência. O corpo deixa de ser apenas uma parte da identidade para se transformar num projeto em constante avaliação. Há sempre algo a melhorar, algo para mudar, algo que parece não estar à altura do padrão imposto.
Neste contexto, a autoestima deixa de ser construída a partir da forma como cada pessoa se vê ao espelho e passa a depender cada vez mais da forma como acredita ser vista pelos outros. As redes sociais alimentam essa lógica através de uma cultura de validação constante, onde gostos, comentários e seguidores funcionam como sinais de aprovação social.
Os “influencers”, enquanto figuras públicas, têm um papel importante nesta dinâmica. Muitos promovem estilos de vida aparentemente perfeitos, onde o corpo, a rotina e a disciplina são apresentados como metas acessíveis a todos. No entanto, raramente existe transparência sobre aquilo que está por detrás dessas imagens. O resultado é a normalização de padrões que parecem comuns, mas que estão muito longe de refletir a realidade da maioria das pessoas.
Aos poucos, o exercício físico deixa de ser apenas uma forma de cuidar da saúde e passa também a estar associado a uma forma de corresponder a padrões estéticos. A procura por bem-estar mistura-se com a procura por aceitação, tornando cada vez mais difícil distinguir uma da outra.
Cuidar do corpo nunca deveria ser um problema. O problema começa quando a saúde deixa de ser o objetivo principal e dá lugar a uma busca constante pela perfeição. Porque a perfeição que vemos nas redes sociais não é apenas difícil de alcançar, muitas vezes, nem sequer existe.
Talvez a questão não esteja na existência de padrões irreais, mas sim na forma como uma geração inteira cresce a comparar-se com eles. Enquanto continuarmos a valorizar mais a aparência do que a forma como nos sentimos, a sensação de insuficiência dificilmente desaparecerá. E talvez seja essa a maior ilusão das redes sociais: convencer-nos de que nunca somos suficientes, quando o problema nunca esteve nos corpos reais, mas sim nos padrões irreais que escolhemos valorizar.


























