Utilização da inteligência artificial (IA) em Portugal e na OCDE e UE27. Podemos ignorá-la, ou temos de a adoptar rapidamente?

A utilização da IA por indivíduos está a progredir rapidamente em toda a OCDE. A sua adoção por parte das empresas continua também a expandir-se embora mais lentamente. Os dados agora publicados (OCDE) mostram que mais de um terço dos indivíduos já utiliza atualmente ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa (2025), evidenciando a rapidez com que ela se está a integrar na vida quotidiana das pessoas, empresas e outras entidades. No entanto, de acordo com a Base de Dados desta entidade mundial sobre Acesso e Utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), a adoção continua desigual entre os diferentes grupos populacionais, os países e as regiões.

De facto, como seria de esperar, a maior disparidade é observada em relação à idade do utilizador, caso em que se verifica uma diferença de 53,6 pontos percentuais (pp); igualmente como seria de esperar também as diferenças relacionadas com o nível de escolaridade e o nível de rendimento são significativas, em torno de 21 pp; a diferença entre os sexos no uso da IA é relativamente reduzida, ficando-se apenas em 4,2 pp..

Claro que a juventude é sempre a mais curiosa e nesse sentido, não admira que entre ela a sua taxa de utilização seja particularmente elevada. Por exemplo, entre os estudantes, cerca de 75% deles com 16-24 anos declaram ter utilizado ferramentas de IA generativa. A adoção também é já de alguma forma mais comum entre as pessoas que estão ligadas ao mercado de trabalho, sejam elas pessoas empregadas (41,1%) sejam desempregadas (36,7%). Diferentemente, as pessoas aposentadas e outras de grupos ‘considerados’ inativos apresentam apenas taxas de utilização significativamente mais baixas, por volta de 12,5%. O gráfico seguinte mostra a taxa de utilização da IA por parte dos indivíduos de 16 a 24 anos, de 16 a 74 e de 55 a 74 anos também nos países da OCDE.

Estes números mostram que o uso da IA é cada vez maior, mas variável de país para país, localizando-se Portugal em 13º lugar, na primeira metade dos 33 países da OCDE constantes do gráfico. A par do aumento da taxa de utilização por parte dos indivíduos tomados individualmente, a adoção da IA pelas empresas também continua a progredir nos referidos países da OCDE para os quais existem dados disponíveis. De facto, em 2025, 20,2% das empresas declararam utilizar IA, quando em 2024 eram 14,2% e em 2023 eram 8,7% em 2023. Esta evolução significa que a adoção mais do que duplicou nos últimos dois anos. Fica ainda mais claro se notarmos que o crescimento da utilização da IA ao nível das empresas atingiu já um valor médio de 42,4% em 2025, isto apesar de este valor traduzir um abrandamento em relação aos anos anteriores.

A taxa média de adoção da IA ultrapassa os 35% em vários países nórdicos (Dinamarca, Finlândia e Suécia). Mas também na Suíça, Estónia, Irlanda, Países Baixos, Grécia, Luxemburgo, Suécia, Áustria, Portugal, Espanha, Eslovénia, França e Ucrânia, apresentam valores significativos, acima da taxa média da OCDE. A própria média da UE. no seu todo, apresenta valores de utilização inferior ao valor `médio’ de utilização na OCDE.

Também o tamanho das empresas interfere com a taxa de utilização de IA, pois os níveis de adoção são muito desiguais: 52,0% das grandes empresas utilizam IA, contra 17,4% das pequenas empresas. Para a disseminação das ferramentas de IA generativa para uso público, devem ter contribuído sem dúvida o ChatGPT e o Copilot, entre outros, pois eles foram amplamente disponibilizados, e noticiados, desde 2024, o que pode ter contribuído para esse aumento.

A verdade é que em 2025, são já 57,3% as empresas do setor das TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) em toda a OCDE que utilizam IA, que, compreensivelmente, apresentam o valor mais alto entre os diferentes sectores de atividade. A este seguem-se os sectores das atividades profissionais, científicas e técnicas (36,8%). Em alguns países, a utilização da IA no setor das TIC já atingiu níveis próximos da saturação;  são os casos da Suécia (87,9 %), da Áustria (79,9 %) e da Finlândia (79,8 %).

Por outro lado, o processo de crescimento da utilização da IA tem-se vindo a ajustar nomeadamente nos sectores de atividade onde era menos utilizado. De facto, esse processo continuou particularmente forte em setores que anteriormente registavam atrasos na sua implementação. Por exemplo, o crescimento anual atingiu 62,5% no alojamento e restauração e 59,1% na construção. Outros setores também registaram crescimentos positivos, embora mais moderados, variando entre 25,8% e 51,7%. O mapa seguinte mostra a trajetória da evolução nalguns desses sectores.

E em Portugal e suas regiões como estamos em termos de I.A.?

Como já referimos acima, Portugal está no 13º lugar (cerca de 37% aproximadamente) entre os países da OCDE (35% aprox.) e ainda mais acima da média U.E.27 (33% aprox.), com taxas de penetração que variam entre os 15% e os 75%, mas com variações significativas por idades. Por exemplo a média nacional situa-se por volta dos 37% ou 38%, para os indivíduos com mais idade, com mais de 55 anos ela é de cerca de 15%, mas já está acima dos 75% para os mais jovens, ou seja, entre os 16 e 24 anos. Por regiões do nosso país embora ainda não disponhamos de dados certamente que não nos enganaremos se dissermos que as maiores penetrações estarão nas pessoas, empresas e outras entidades das zonas urbanas mais povoadas, como, por exemplo, Lisboa e Porto, seguindo-se depois os centros urbanos de média dimensão e acabando nas cidades e vilas mais pequenas e nas zonas mais rurais do Portugal profundo, i.é, do interior de norte a sul do País.

* Prof Catedrático. Universidade da Beira Interior. Responsável do Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social (ODES).

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