“A UBI faz parte da minha história e do caminho que me trouxe até aqui”

É o novo selecionador da equipa sensação do último mundial de futebol. Mestre pela UBI em Ciências do Desporto, Humberto Bettencourt não esquece a instituição e a sua importância no percurso que o levou até à liderança da seleção principal de Cabo Verde.

Urbi et Orbi: Há poucos meses estava a apresentar a sua dissertação de mestrado na UBI. Agora é o selecionador nacional de Cabo Verde. Se lhe dissessem, naquele momento, que este seria o passo seguinte da sua carreira, o que responderia?
Humberto Bettencourt: Diria que era um objetivo que tinha, claro, mas não imaginava que pudesse acontecer tão cedo. Na minha cabeça, esse passo surgiria mais à frente, depois do ciclo do Mister Bubista. Por isso, quando aconteceu, apanhou-me um pouco de surpresa. Ao mesmo tempo, senti que era uma oportunidade para a qual vinha a preparar-me há vários anos.

 

U@O: Assumir a seleção depois de uma campanha histórica no Mundial, e depois de seis anos na equipa técnica, significa receber uma equipa num momento particularmente alto. É uma responsabilidade acrescida ou também uma oportunidade privilegiada?
HB: As duas coisas. É uma responsabilidade acrescida porque existe uma expectativa naturalmente maior depois de um Mundial histórico. Mas é também uma oportunidade muito boa porque não estou a chegar a uma realidade que desconheço. Fiz parte deste percurso durante seis anos, participei nas conquistas, mas também nos momentos mais difíceis. Conheço os jogadores, conheço a estrutura e conheço aquilo que nos trouxe até aqui. O maior desafio agora é preservar o que foi bem feito e introduzir aquilo que entendermos necessário para continuarmos a evoluir.

 

U@O: Depois de um Mundial histórico, qual deve ser o próximo passo para que o crescimento do futebol cabo-verdiano não seja apenas um momento, mas um processo sustentado?
HB: O grande desafio é aproveitar este momento para fazer crescer todo o futebol cabo-verdiano. O Mundial deu-nos visibilidade e mostrou aquilo de que somos capazes, mas a continuidade depende da formação de treinadores, do desenvolvimento dos jovens, de melhores condições e de competições mais fortes. A seleção é apenas a parte mais visível desse processo, mas crescimento verdadeiro faz-se muito antes de o jogador chegar à seleção.

 

U@O: O que é que uma experiência como a participação no Mundial, vivida por dentro, ensina a um treinador?
HB: Ensina muita coisa que dificilmente se aprende apenas nos livros ou numa formação. Acima de tudo, ensina a importância do detalhe, da preparação e do equilíbrio emocional, pois num Mundial estamos perante os melhores jogadores e treinadores, num contexto de enorme pressão, e percebemos que os pequenos detalhes podem fazer uma grande diferença. Também aprendemos muito sobre gestão de grupo, comunicação, tomada de decisão e capacidade de adaptação. Para mim foi uma experiência extremamente importante.

 

U@O: A sua dissertação estudou a monitorização da carga de treino, a recuperação e a prontidão desportiva no futebol cabo-verdiano. Quão presentes estão hoje esses conhecimentos na sua forma de trabalhar?
HB: Estão muito presentes. Não significa que uma equipa de futebol possa ser conduzida apenas através dos dados, porque não pode, mas os dados são muito importantes e ajudam-nos a tomar decisões mais informadas. Hoje procuramos perceber não apenas aquilo que o jogador faz no treino, mas também como responde à carga, como recupera e em que condições chega ao treino seguinte ou ao jogo. Na seleção isto ganha ainda mais importância, porque recebemos jogadores provenientes de clubes e contextos competitivos muito diferentes e temos poucos dias para os preparar.

 

U@O: O que é que a investigação académica lhe ensinou que a experiência no banco não lhe teria ensinado da mesma forma?
HB: Ensinou-me sobretudo a questionar mais, pois no futebol há muitas ideias que se repetem porque sempre foram feitas assim ou porque resultaram num determinado contexto, e a investigação obriga-nos a ir um pouco mais fundo, a procurar evidência, a interpretar melhor os dados e a perceber também as limitações daquilo que sabemos. A experiência de campo continua a ser fundamental, mas hoje procuro juntar as duas coisas: aquilo que vejo e sinto como treinador e aquilo que o conhecimento científico me ajuda a compreender melhor.

 

U@O: A relação com a UBI não terminou com o mestrado, estando agora a frequentar o doutoramento. O que o leva a continuar a investir na formação académica numa fase em que a carreira profissional está a atingir um dos seus pontos mais altos?
HB: Porque acredito que quanto maior é a responsabilidade, maior deve ser também a vontade de continuar a aprender. Neste sentido, o doutoramento permite-me aprofundar conhecimentos, manter-me ligado à investigação e pensar o treino e o jogo de forma cada vez mais crítica e fundamentada.

 

U@O: Estudar Ciências do Desporto na Covilhã, vindo de Cabo Verde, permitiu-lhe olhar para o futebol cabo-verdiano com outra perspetiva?
HB: Sim, sem dúvida. Quando saímos do nosso contexto, começamos também a olhar para ele de outra forma. Na Covilhã tive contacto com outras metodologias, outras realidades e diferentes formas de pensar o treino e o desporto. Mas talvez uma das aprendizagens mais importantes tenha sido perceber que não devemos simplesmente copiar aquilo que vemos noutros países. É preciso conhecer bem a nossa realidade, perceber os recursos que temos e adaptar o conhecimento ao contexto cabo-verdiano.

 

U@O: Que importância teve a UBI na transformação do treinador que era quando chegou à Covilhã no treinador que é hoje?
HB: Teve uma importância muito grande, sobretudo na forma como passei a pensar o treino e a fundamentar melhor as minhas decisões, juntando aquilo que aprendi na UBI com a experiência que o campo me foi dando.

 

U@O: Hoje, como selecionador nacional de Cabo Verde, o que significa para si poder dizer que também é “made in UBI”?
HB: Significa reconhecer uma etapa muito importante do meu percurso. Cheguei à UBI para aprender e encontrei um espaço que me permitiu crescer academicamente, mas também como treinador e como pessoa. Hoje tenho a responsabilidade de representar o meu país como selecionador nacional e levo comigo muitas das aprendizagens que construí na Covilhã. Por isso, dizer que também sou “made in UBI” é reconhecer que a Universidade faz parte da minha história e do caminho que me trouxe até aqui.

 

 

Nome: Humberto Bettencourt

Naturalidade: São Nicolau Tolentino, ilha de Santiago (Cabo Verde)

Curso: Ciências do Desporto

Ano de entrada na UBI: 2024

Filme preferido: “Coach Carter”

Livro preferido: “Como Ganhar Usando a Cabeça — Um Guia de Treino Mental para o Futebol”, de Jorge Silvério e Rafi Srebo.

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